
Das estantes para as redes sociais, as conversas sobre leitura acontecem cada vez mais online. Beatriz Botelho e Ana Santos fazem parte dessa transformação ao conquistarem espaço no BookTok, a comunidade literária do TikTok. Entre recomendações de livros e comunidades de leitores, estes criadores de conteúdo aproximam jovens da leitura, com impacto no mercado editorial.
As páginas abrem-se entre suspiros, frases sublinhadas e reações emocionais. Um vídeo começa com alguém a segurar um livro contra o peito e diz: “Este destruiu-me”. Noutro, uma pilha de romances surge ao ritmo de uma música viral. Há quartos repletos de prateleiras, capas coloridas em frente à câmara. Este é o BookTok, uma comunidade dentro da rede social TikTok, em que o gosto pela leitura é partilhado por milhões de utilizadores.
A lógica do algoritmo faz com que os mesmos títulos se repitam até se tornarem familiares, criando uma sensação de urgência: a ideia de que aquele livro tem de ser lido imediatamente. Para Jéssica Tavares, leitora e consumidora deste tipo de conteúdos, o BookTok funciona como um espaço de pertença. “É como fazer parte de um clube”, afirma. É esta sensação, este lugar onde a diversidade de opiniões se torna num espaço de partilha, que une os leitores e os faz conectarem-se. Neste espaço, o livro deixa de ser apenas texto. Torna-se imagem, emoção e conversa, pela mão de criadores de conteúdo que utilizam as redes sociais para iniciar o diálogo.
Criar conteúdo
Beatriz Botelho começou a falar sobre livros nas redes sociais há dois anos e olha para os seus seguidores como um grupo de amigos. A criadora de conteúdo indica não precisar de muito. Com o tripé preparado e uma boa iluminação, senta-se em frente à câmara, com um fundo repleto de livros, e começa mais um vídeo, conforme planeado. “Não tenho o melhor microfone, não tenho a melhor câmara, não tenho o melhor cenário, não tenho nada e mesmo assim tenho uma comunidade incrível”, conta. Licenciada em Comunicação e Media, no Instituto Politécnico de Leiria, acaba por trazer um pouco daquilo que faz profissionalmente para o BookTok: design digital. Foi da necessidade de partilhar e receber opiniões literárias que decidiu começar a criar conteúdos digitais.
Também Ana Santos, licenciada em Marketing no Instituto Politécnico de Leiria, encontrou no BookTok um espaço para partilhar uma paixão que antes vivia de forma solitária. Ao contrário de Beatriz, Ana não planeia os vídeos. “Eu li, gostei, partilho. Não gostei, partilho também”, refere. “É como se a câmara fosse uma amiga”.
Criar conteúdos sobre livros implica gravar vídeos, editar e gerir parcerias. Ana Santos explica como aborda cada vídeo de forma diferente: se for um unboxing, foca-se mais na edição; no caso das reviews, concentra-se mais no texto e mantém um tom mais sério. A criadora de conteúdo aplica os seus fundamentos profissionais para definir este método. “Sou da área do Marketing, então acabo por já ter algum conhecimento”.
Com o crescimento das contas, surgem colaborações com editoras e livrarias. Beatriz descreve a rua rotina numa livraria: “É entrar, beber o meu café, gravar a campanha e recolher o livro do mês”.
“Eu tento fazer um equilíbrio saudável entre as duas coisas”, conta a booktoker, relativamente à autenticidade em contraponto com as tendências. É desta forma que ambas indicam partilhar o conteúdo, com a preocupação de não ceder à pressão de terem de “gostar daquilo que as editoras enviam”, como refere Ana Santos. Perspetivar a leitura como um “hobby interessante e não como uma coisa aborrecida” é também um objetivo para Ana. Os consumidores deste tipo de conteúdo são atraídos pela autenticidade e, como explica Márcia Fernandes, pela “forma de contar histórias”. Lara Mariano refere que, com o aumento do preço dos livros, quer ter a certeza de que escolhe com consciência. “Se é para gastar dinheiro num livro, quero comprar um livro de que goste”. A consumidora considera que estas microinfluenciadoras a ajudam na decisão.

Leituras que entram pelo ecrã
Lara Mariano observa que o conteúdo digital sobre livros é uma maneira de formar novos leitores, que começam a ler “por moda e depois acabam por gostar”. Maria José Gamboa, professora da ESECS, especialista na área da leitura, concorda com esta afirmação, referindo que “os criadores de conteúdo digital podem ser aliados extraordinários para a promoção da leitura e para a formação de leitores”. Assim, a ideia de que os jovens não leem começa a ser posta em causa, não apenas por números, mas também por quem acompanha de perto o mundo dos livros.
A Associação Portuguesa de Editores e Livreiros (APEL) confirma esta perceção: em 2024, os jovens entre os 25 e os 34 anos leram mais do que no ano anterior, e entre 2020 e 2025 a venda de livros apresenta uma tendência crescente, tendo-se verificado no final de 2025 cerca de 15 milhões de livros vendidos. Ainda assim, a realidade é complexa. A professora lembra que muitos inquéritos continuam a apontar para um défice de leitura, sobretudo de literatura e jornais. Em contrapartida, destaca o crescimento do mercado editorial e observa que “os festivais literários são cada vez em maior número”, bem como os clubes de leitura, sinais de que o interesse pela leitura existe, ainda que se manifeste de novas formas. Uma dessas formas passa, cada vez mais, pelas redes sociais.
A docente refere que “os jovens que leem em formato analógico leem, igualmente, em formato digital”. As redes sociais contribuem par aa difusão de livros e para a construção de uma imagem social da leitura. Os criadores de conteúdos, defende, não se limitam a promover livros. Muitos desenvolvem um trabalho consistente, baseado na reflexão e no pensamento crítico. “Há gente a gerar conteúdos comprometidos com a construção de uma sociedade mais justa, livre e igualitária”, sublinha. Maria José Gamboa considera que o BookTok pode estar a influenciar o mercado editorial, “o que não é necessariamente uma prática negativa”. Para a docente, é, no entanto, importante que os novos criadores de conteúdos digitais sobre livros “tenham consciência do papel social e cultural que podem desenvolver”. A professora reflete sobre a importância de “fintar o algoritmo, caso contrário nunca nos confrontaremos com ideias diferentes das nossas. E essa capacidade de pensar, crítica e empaticamente, a partir da perspetiva do outro é fundamental”. Nesse sentido, “quanto mais diversificado for o percurso de leituras dos jovens, maiores serão as possibilidades de se formarem enquanto leitores, com possibilidade de escolher e de escolher ler com bom gosto”, conclui.

Vídeos que vendem livros
Nas livrarias, o impacto das redes sociais é acompanhado com atenção. Alexandra Vieira, proprietária da livraria Arquivo, considera que falar sobre livros “é sempre bom, é tornar a leitura uma forma de estar natural e não um ‘bicho de sete cabeças’”. A proprietária defende, no entanto, a importância de refletir antes de seguir modas e sublinha que o contacto humano continua a ser essencial no momento da compra e que as redes sociais funcionam como complemente, não como substituto das livrarias. “A solidão é cada vez maior, em todas as idades, e é preciso que haja espaços onde as pessoas se possam sentir bem e acompanhadas”, reforça.
Neste contexto, as livrarias assumem-se como mediadoras culturais, equilibrando a influência das redes sociais com a curadoria, o aconselhamento e a criação de comunidades leitoras. Também Maria José Gamboa acredita que o mercado editorial terá de encontrar equilíbrio entre os criadores digitais e a crítica literária tradicional. Para a professora, é importante estar “atento a uns e a outros, sem abandonar a reflexão crítica sobre literatura”.

Influência com consciência
A responsabilidade associada à recomendação de livros a públicos jovens surge como uma preocupação transversal entre criadores de conteúdos. Beatriz Botelho tem consciência de que muitos dos seus seguidores são menores. “Tenho sempre algum cuidado, porque sei que me acompanham várias pessoas que ainda não têm 18 anos”, explica.
A relação com as editoras levanta igualmente questões de transparência. Beatriz garante que a autenticidade orienta o seu trabalho: “Aquilo que eu acho é aquilo que eu vou dizer. Aliás, aconteceu este ano. O pior livro que eu li este ano foi enviado por uma editora e eu fiz um vídeo sobre isso. E não perdi a parceria, está tudo bem”. Ana Santos assume uma atitude semelhante, embora opte por uma linguagem menos dura. “Nunca faço uma crítica destrutiva. Nunca. Digo que não foi para mim, mas será claramente para alguém”.
Enquanto criadoras em língua portuguesa, assumem também um compromisso com a divulgação de autores nacionais. “Acho que é importante usarmos este espaço para falar sobre o que os autores portugueses estão a escrever”, defende Beatriz. Ana Santos refere que, quando partilha livros em inglês, tem o cuidado de “dizer que a tradução já está publicada, ou vai ser publicada”.
Num espaço dominado pelo algoritmo, estas escolhas mostram que o BookTok não é apenas consumo rápido; é também um território de decisões éticas. “Precisamos de formar gente apaixonada por livros que saiba divulgá-los com sentido ético e estético”, defende Maria José Gamboa, destacando o potencial transformador dos livros literários e da promoção da leitura.
Assim, a leitura do século XXI afirma-se como uma prática em transformação. Entre algoritmos, estantes físicas e comunidades digitais, ler deixou de ser apenas um ato solitário. Tornou-se partilha, identidade e, em alguns casos, trabalho.
Texto: Jandira Tavares | Lara Pereira | Margarida Paraíso | Sara Manso
Fotos: Christin Hume | Unsplash ; Open Doodles